Você já viu pessoas defendendo coisas que parecem absurdas?
Todos os humanos vivos, independentemente da geração, presenciam um fenômeno sociológico estranho, nebuloso, confuso, e por vezes, hilário ou triste.
Pós-verdade foi escolhida como palavra do ano em 2016 pelo Oxford Dictionaries, e representa a circunstância onde o fato têm menos influência em moldar a opinião do que apelos à emoção e a crença. Facilmente seria escolhida novamente hoje, em 2026!
Na prática, é a pessoa que não se preocupa em identificar a verdade e adota a informação que mais reforça seus pensamentos e gera conforto emocional, por mais contraditória ou improvável que seja.
Já viu essa cena antes? Se não viu, comece a observar! A pós-verdade está tanto nas consultas de informações em fontes não confiáveis dos trabalhos de escola quanto nas notícias fake ou vídeos de IA que se espalham nas redes sociais e whatsapp.
Dez anos depois e a palavra permanece atual…
Às vezes pode ser considerada apenas uma distração, mas é o resultado de uma séria inversão de valor, quando a verdade passa a ser relativizada e os achismos impulsivos ganham espaço.
É um fenômeno complexo, filho de múltiplos fatores sociais, ideológicos e tecnológicos que alimentaram desconfianças sobre instituições e conhecimentos já consolidados.
Começa com a fragmentação de informações e a simplificação de conteúdos, mas pode culminar na incapacidade de diferenciar uma pesquisa científica de uma previsão astrológica. Começa com a escolha de ignorar uma argumentação com fatos e termina em péssimas decisões baseadas em fantasias imaginárias.
Claro que as tecnologias de comunicação apresentam benefícios em termos de divulgação porque permitem cooperação e pluralismo. Entretanto, elas abrem o mesmo espaço para os trapaceiros, mal intencionados, manipuladores e terroristas. Nasce a indústria da desinformação.
Como toda professora que tem uma visão otimista de seus alunos, eu acreditava que a maior parte da população teria pensamento crítico, mas não é essa a característica prevalente, nem nas redes sociais e nem nas mesas do bar ou no almoço de domingo.
O que mais vemos são indivíduos recebendo e aceitando informações rasas, ignorando a complexidade daquilo que ele não sabe que não sabe, sem a preocupação com a veracidade.
Quando comparamos esse cenário atual com alguns mecanismos de funcionamento cerebral, fica claro o quanto o buraco da pós-verdade é fundo.
Redes sociais não produzem e muito menos filtram criticamente qualquer coisa, elas utilizam algoritmos que direcionam conteúdos e pessoas para aqueles que compartilham dos mesmo interesses. Tudo que circula, mesmo sendo mentira, não é questionado.
Quando esses conteúdos são mentirosos, tendem a apelar para crenças pessoais, reforçar fantasias místicas, criar teorias conspiratórias. O fato de alimentarem bolhas nas redes sociais e whatsapp sem questionamento, fortalece, e muito, tais opiniões.
O cérebro tem o mecanismo dos vieses cognitivos, que são atalhos de processamento de informações, sendo que um deles é o viés de confirmação, que faz com que sempre se atribua mais valor para aquilo que reforça algo que já pensamos.
Resumindo, o funcionamento das redes sociais somado ao viés de confirmação do cérebro se torna uma máquina de distorção da realidade.
Por questões de vaidade, conveniência e conforto, as pessoas escolhem conectar-se apenas com as coisas que gostam, excluindo visões diferentes e argumentos diversos.
A repetição é outro mecanismo utilizado por quem dissipa tais informações falsas, e no cérebro ela tem um efeito muito forte, tanto na memória quanto no apego àquela informação. É o viés da familiaridade. Quanto mais familiar é o conteúdo e mais vezes tivemos contato com ele, mais o julgamos ser verdadeiro.
Quando compartilhados por um grupo grande, os vieses de confirmação e familiaridade se tornam um “tribalismo”
O sociólogo francês Michel Maffesoli popularizou o conceito de tribo urbana, quando os indivíduos acreditam cegamente naquilo que seu grupo, real ou imaginário, acredita.
Para completar o círculo vicioso, temos o efeito Dunning-Kruger e a dissonância cognitiva.
O efeito Dunning-Kruger define que, quanto menos uma pessoa sabe, mais ela acredita saber. Quando não sabemos nada sobre algo, é fácil cair na ilusão de que sabemos muito, porque não enxergamos a complexidade real do assunto.
A dissonância cognitiva é uma teoria que aponta a busca constante das pessoas por “um estado de coerência consigo mesmo”, ou seja, nós adaptamos naturalmente o que sabemos ou acreditamos com o que fazemos. Quando há um conflito entre ações e informações, ocorre um ajuste interno ao conjunto de crenças, restaurando sempre o “estado de coerência”, buscando evitar o mal-estar psicológico a todo custo.
Na prática, quando alguém está apegado fortemente à uma ideia e é confrontado com fatos contrários, ela mentalmente vai buscar e acreditar em qualquer coisa que reduza o desconforto psicológico, levando a racionalização de teorias absurdas e justificativas.
O psiquiatra Karl Menninger cita que “as atitudes são mais importantes que os fatos e isso gera um efeito neurológico”. Uma vez existindo um efeito de recompensa o cérebro buscará por esse sentimento mais vezes, e com a repetição e o reforço de pertencimento a um grupo, diversas partes do cérebro passam a estabilizar uma ideia em ideia fixa. A partir desse momento qualquer mudança causará medo e repulsa, ligando os mecanismos de defesa. A pessoa que atingiu esse ponto vai se defender da verdade com unhas e dentes.
Está feito o fanatismo.
Mas não temos controle sobre isso?
Uma parte do cérebro, o córtex pré-frontal dorsolateral, é capaz de bloquear esses instintos, só que sua função é mais lenta. Para que possamos impor a razão e a lógica é necessário determinação e esforço. É necessário ter APRENDIDO a fazer isso, pois tal habilidade é complexa e construída pela educação e convivência social discutindo ideias.
Como fica esse controle cognitivo em um cenário onde aquele que discorda é atacado? Onde as pessoas são treinadas a não ouvir quem pensa diferente? Onde as redes alimentam as bolhas?
Biologicamente é desagradável mudar a própria mente, é o funcionamento do próprio cérebro humano, por isso criamos a educação, escolas e regras sociais. Quebrar e enfraquecer os meios sociais para o desenvolvimento do controle cognitivo traz consequências geradas pela fixação nas crenças e a não observância dos fatos através da lógica.
Já presenciamos muitas dessas consequências, como o retorno de doenças já extintas pelas vacinas, surgimento de grupos neonazistas e ataques terroristas, só para citar exemplos.
A palavra do ano de 2025 por Oxford foi Rage Bait traduzida como “isca de raiva”, e refere-se a conteúdos criados propositalmente para provocar indignação e frustração, gerando alto engajamento. Ou seja, as reações impulsivas e apelativas que alimentam o fanatismo e a desinformação continuam sendo o motor da internet. Enquanto não houver educação que volte a ensinar as pessoas a pensarem e não apenas a reagirem, continuaremos reféns da falta de pensamento crítico.
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