Pensamento Crítico

Você já viu pessoas defendendo coisas que parecem absurdas?

· Lívia da Silva Ciacci
Você já viu pessoas defendendo coisas que parecem absurdas?

Você já viu pessoas defendendo coisas que parecem absurdas?

Todos os humanos vivos, independentemente da geração, presenciam um fenômeno sociológico estranho, nebuloso, confuso, e por vezes, hilário ou triste.

Pós-verdade foi escolhida como palavra do ano em 2016 pelo Oxford Dictionaries, e representa a circunstância onde o fato têm menos influência em moldar a opinião do que apelos à emoção e a crença. Facilmente seria escolhida novamente hoje, em 2026!

Na prática, é a pessoa que não se preocupa em identificar a verdade e adota a informação que mais reforça seus pensamentos e gera conforto emocional, por mais contraditória ou improvável que seja.

Já viu essa cena antes? Se não viu, comece a observar! A pós-verdade está tanto nas consultas de informações em fontes não confiáveis dos trabalhos de escola quanto nas notícias fake ou vídeos de IA que se espalham nas redes sociais e whatsapp.

Dez anos depois e a palavra permanece atual…

Às vezes pode ser considerada apenas uma distração, mas é o resultado de uma séria inversão de valor, quando a verdade passa a ser relativizada e os achismos impulsivos ganham espaço.

É um fenômeno complexo, filho de múltiplos fatores sociais, ideológicos e tecnológicos que alimentaram desconfianças sobre instituições e conhecimentos já consolidados.

Começa com a fragmentação de informações e a simplificação de conteúdos, mas pode culminar na incapacidade de diferenciar uma pesquisa científica de uma previsão astrológica. Começa com a escolha de ignorar uma argumentação com fatos e termina em péssimas decisões baseadas em fantasias imaginárias.

Claro que as tecnologias de comunicação apresentam benefícios em termos de divulgação porque permitem cooperação e pluralismo. Entretanto, elas abrem o mesmo espaço para os trapaceiros, mal intencionados, manipuladores e terroristas. Nasce a indústria da desinformação.

Como toda professora que tem uma visão otimista de seus alunos, eu acreditava que a maior parte da população teria pensamento crítico, mas não é essa a característica prevalente, nem nas redes sociais e nem nas mesas do bar ou no almoço de domingo.

O que mais vemos são indivíduos recebendo e aceitando informações rasas, ignorando a complexidade daquilo que ele não sabe que não sabe, sem a preocupação com a veracidade.

Quando comparamos esse cenário atual com alguns mecanismos de funcionamento cerebral, fica claro o quanto o buraco da pós-verdade é fundo.

Redes sociais não produzem e muito menos filtram criticamente qualquer coisa, elas utilizam algoritmos que direcionam conteúdos e pessoas para aqueles que compartilham dos mesmo interesses. Tudo que circula, mesmo sendo mentira, não é questionado.

Quando esses conteúdos são mentirosos, tendem a apelar para crenças pessoais, reforçar fantasias místicas, criar teorias conspiratórias. O fato de alimentarem bolhas nas redes sociais e whatsapp sem questionamento, fortalece, e muito, tais opiniões.

O cérebro tem o mecanismo dos vieses cognitivos, que são atalhos de processamento de informações, sendo que um deles é o viés de confirmação, que faz com que sempre se atribua mais valor para aquilo que reforça algo que já pensamos.

Resumindo, o funcionamento das redes sociais somado ao viés de confirmação do cérebro se torna uma máquina de distorção da realidade.

Por questões de vaidade, conveniência e conforto, as pessoas escolhem conectar-se apenas com as coisas que gostam, excluindo visões diferentes e argumentos diversos.

A repetição é outro mecanismo utilizado por quem dissipa tais informações falsas, e no cérebro ela tem um efeito muito forte, tanto na memória quanto no apego àquela informação. É o viés da familiaridade. Quanto mais familiar é o conteúdo e mais vezes tivemos contato com ele, mais o julgamos ser verdadeiro.

Quando compartilhados por um grupo grande, os vieses de confirmação e familiaridade se tornam um “tribalismo”

O sociólogo francês Michel Maffesoli popularizou o conceito de tribo urbana, quando os indivíduos acreditam cegamente naquilo que seu grupo, real ou imaginário, acredita.

Para completar o círculo vicioso, temos o efeito Dunning-Kruger e a dissonância cognitiva.

O efeito Dunning-Kruger define que, quanto menos uma pessoa sabe, mais ela acredita saber. Quando não sabemos nada sobre algo, é fácil cair na ilusão de que sabemos muito, porque não enxergamos a complexidade real do assunto.

A dissonância cognitiva é uma teoria que aponta a busca constante das pessoas por “um estado de coerência consigo mesmo”, ou seja, nós adaptamos naturalmente o que sabemos ou acreditamos com o que fazemos. Quando há um conflito entre ações e informações, ocorre um ajuste interno ao conjunto de crenças, restaurando sempre o “estado de coerência”, buscando evitar o mal-estar psicológico a todo custo.

Na prática, quando alguém está apegado fortemente à uma ideia e é confrontado com fatos contrários, ela mentalmente vai buscar e acreditar em qualquer coisa que reduza o desconforto psicológico, levando a racionalização de teorias absurdas e justificativas.

O psiquiatra Karl Menninger cita que “as atitudes são mais importantes que os fatos e isso gera um efeito neurológico”. Uma vez existindo um efeito de recompensa o cérebro buscará por esse sentimento mais vezes, e com a repetição e o reforço de pertencimento a um grupo, diversas partes do cérebro passam a estabilizar uma ideia em ideia fixa. A partir desse momento qualquer mudança causará medo e repulsa, ligando os mecanismos de defesa. A pessoa que atingiu esse ponto vai se defender da verdade com unhas e dentes.

Está feito o fanatismo.

Mas não temos controle sobre isso?

Uma parte do cérebro, o córtex pré-frontal dorsolateral, é capaz de bloquear esses instintos, só que sua função é mais lenta. Para que possamos impor a razão e a lógica é necessário determinação e esforço. É necessário ter APRENDIDO a fazer isso, pois tal habilidade é complexa e construída pela educação e convivência social discutindo ideias.

Como fica esse controle cognitivo em um cenário onde aquele que discorda é atacado? Onde as pessoas são treinadas a não ouvir quem pensa diferente? Onde as redes alimentam as bolhas?

Biologicamente é desagradável mudar a própria mente, é o funcionamento do próprio cérebro humano, por isso criamos a educação, escolas e regras sociais. Quebrar e enfraquecer os meios sociais para o desenvolvimento do controle cognitivo traz consequências geradas pela fixação nas crenças e a não observância dos fatos através da lógica.

Já presenciamos muitas dessas consequências, como o retorno de doenças já extintas pelas vacinas, surgimento de grupos neonazistas e ataques terroristas, só para citar exemplos.

A palavra do ano de 2025 por Oxford foi Rage Bait traduzida como “isca de raiva”, e refere-se a conteúdos criados propositalmente para provocar indignação e frustração, gerando alto engajamento. Ou seja, as reações impulsivas e apelativas que alimentam o fanatismo e a desinformação continuam sendo o motor da internet. Enquanto não houver educação que volte a ensinar as pessoas a pensarem e não apenas a reagirem, continuaremos reféns da falta de pensamento crítico.

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